4 de novembro de 2014

A ELIPSE


Foto: Ognyan Geshev


A ELIPSE



Há a elipse 
da Palavra.

Fala-me ao ouvido.
Chama-me.
Eu rendo-me,
rasgando o que me cobre e,
no obscuro pulsar
dos corpos,
abro os lábios
para te falar de inocência
na ponta dos dedos.

Há a elipse 
da Palavra.

Imortalizo-te 
na mesa deserta.
Solto as vogais.
Leio-te de olhos fechados
como se o teu corpo
fosse braille.

Há a elipse 
da Palavra.

A caligrafia é transparente.
É horrível, e por isso,
fica invisível. 
Saio na ponta dos pés.
Ainda nada te disse.
Não sei quem és.

Há a elipse 
da Palavra.

Liberto a língua.
Alio sílabas.
Formo palavras.
Há coisas que não
se consegue dizer.
Tapa os olhos 
e vais ver.

Encosto-me.
Anseias-me.
Ardo.
Desfaço-me em espuma.
Apeteces-me.

Há a elipse 
da Palavra.

Fica o cheiro 
na raiz do papel.
A Palavra morreu.
Fica o eco aceso
do que (não) te disse
em gestos silenciosos.

Há a elipse 
da Palavra.

Amo-te.

Ana Pereira