14 de junho de 2015

CANTIGA NA RUA


Foto: Haleh Bryan 

CANTIGA NA RUA 


Ai Deus,
que não posso falar (-te).
Pode a alma cantar
e tu poderás escutar.

Bem segura e
sem formosura,
vou descendo a avenida
com a guarida
de desejos
e um molho de rosas
para os teus olhos.
Ai Deus, triste moça sou!

Abraso a neve
e ninguém se atreve a 
soltar-me os cabelos
pois o que tenho
está na ponta dos teus dedos,
e não no caos.
Na ponta da língua, 
hálito de vontade.
Ai Deus, que sou feiticeira!

Vestida de verso
fiado.
E tu olhas para mim
e o vestido fica rasgado.
Quero que o ventre vazio
fique habitado por ti.
Ai Deus, que sou pedinte.

Não semeies os sonhos
nos verdades campos.
Anda descobrir os vales.
Vem encontrar-me.
Ai Deus, que estou perdida!

Fico com as pernas boquiabertas
só de te querer
pois sabes dos mundos
presos à minha cintura. 
Libertas o perfume liquido
da ternura
da rosa que te trago.
Ai Deus, que faço eu?

Foge o grito açucarado
diluído no gemido
aguado da existência.
Ai Deus, que é de mim?

Piso a terra
descalça para a vida.
Não sei o que me prende
mas há algo em mim se enterra.
Disso não falo!
Ai de mim, ré sou!

Perdoai-me Deus
por tão enleada
estar de mim.
Não é pecado matar a fome
de quem ainda não comeu.
Devo apaziguar o ávido gineceu. 

Sem cantigas,
vou descalça,
formosa e segura
de te poder encontrar. 

 Ana Pereira