26 de junho de 2015

IDA E (RE)VOLTA

 
Foto: A. Brito



IDA E (RE)VOLTA


Partirei quando vir
o teu perfil como
caravela dourada
e a tua pele entranhada
de perfume que não há.

Partirei quando a terra
de nevoeiro
ficar saturada e conseguires
escrever-me ecos compassados
de silêncios.

Partirei na inexistência de mares
bocais
nunca antes navegados.

Mas haverá sempre ida e uma (re)volta!

Regressarei na barca da estrofe
com remos de
versos
canelados e apimentados
em sentido proibido.

Regressarei quando caírem
as primeiras sílabas
na espuma branca
do mar de poesia.

Regressarei quando me vires
além do poema
e me tornares voz
na corda (vocal)
onde me fazes baloiçar.

Vestidos de fogo,
iremos enxugar as palavras
naufragadas
e guardadas em gavetas orvalhadas.

No regresso abriremos 
essas arcas proibidas
cobertas pela verdura
dos meus olhos.

Regressarei morta por
despir e por amar.

Apenas para ti
abrirei a rosa cálida,
plena e húmida
que trago.

Fundir-me-ei contigo
quando recolheres a luz
que imana do meu corpo.

Abrirei as comportas
do peito
e dos nossos lábios entreabertos
deixaremos partir
a língua com o pecado
a bordo.

Ana Pereira