9 de agosto de 2015

HOJE


Foto- Ario Wibisono


HOJE


Hoje o corpo beija o chão
quando me deixas
na cova do leito.

Roçaste na minha boca
para alimentar a prece.
Tornaste-te devoto.

Hoje prendeste-me
na tua voz.
Fiquei atrás das grades.

Arrefeci o corpo
para ficar vazia de emoções.
Nada pode fazer borboletar
as entranhas.

Arranquei o coração.
Coloquei-o para reciclar.
As loucuras são para reinventar.

Lancetei a pele
para ver o reverso.
Conheci a dor de cor
mas não irei recitá-la.

Crema-me.
Faz arder o desejo.
Ilumina-me.

Deixaste pétalas insipidas
para disfarçar o cheiro
que se mistura
com a tua inexistência
viva.

Abandonei o meu corpo.
Nada me prende a ti.

Enterrei-me
a teu lado.
Acordei para ti
na terra que respiro
contigo.

Ana Pereira