18 de setembro de 2015

NÃO SEI


Foto - Madga


NÃO SEI


Não sei.
Não sabe ninguém
como incendiar o reflexo no espelho
quando estamos num quarto
a sós.

Não sei.
Não sabe ninguém
que o que parecia morto
está vivo
e domina o que não digo.

Não sei.
Não sabe ninguém
que sabor surge oculto
pois vem de dentro
como um vulto.

Não sei.
Não sabe ninguém.
que tenho sede dos teus lábios.
Tudo por causa do fogo
descomunal e
inadmissível
que me consome.

Não sei.
Não sabe ninguém.
que sou uma marinheira naufragada
num oceano de labaredas,
a esgotar os meus últimos
sopros de vida.

Não sei.
Não sabe ninguém
que somos uma gota
de desejo
impenetrável
nos corpos alheios.

Não sei.
Não sabe ninguém
que de cada vez
que a boca nega,
o corpo trai-me
e caio na minha armadilha.

Não sei.
Não sabe ninguém
que danço nas tuas mãos
quando te manténs vigilante
na minha insónia.

Não sei.
Não sabe ninguém
que apenas me pedes
penetração
sem palavras.
Por isso não escreverei
mais poemas.

Já não haverá regresso
nos meus passos.

Ana Pereira