9 de dezembro de 2015

A CAMA


Foto: Bezheviy


A CAMA


Quando desejamos,
estamos mortos por algo.
Ficamos no lugar
do morto.

Vamos para a cama
e levamos o silêncio
magoado nos lábios.
Permite-nos estar direitos,
horizontais
com a ilusão dentro de nós.

De mansinho,
damos a mão,
o pulso,
a língua.
As partes não chegam.
Damos o corpo
às palavras engasgadas
na garganta.

Brincamos na cama
para atingirmos o ponto
insaciável com elas,
sem proteção.
Respiramos o vazio
entre o teto
e o chão.

Quando nasce o dia,
permanecemos acamados,
comprometidos com a saliva
que ficou na almofada,
enquanto dormíamos.

ANA PEREIRA