9 de dezembro de 2015

HOMEM COM SAUDADES TINHA QUE SER PÁSSARO




HOMEM COM SAUDADES TINHA QUE SER PÁSSARO


Uns dias,
tenho, no lugar dos braços, duas asas.
E só há caminho no céu que me leva a ti.
Nesses dias, homem com asas de pássaro,
voo por essa estrada de céu de sentido único
e, ainda no ar, desejo os braços de volta
para te abraçar com eles.

Outros dias,
sou todo pássaro 
mas faltam-me os braços.
Nesses dias, pássaro sem braços de homem, 
voo por essa estrada de céu de sentido único
e, ainda no ar, não vejo como, tendo asas,
eu possa abraçar-te com elas.

Uns e outros dias 
– dias de saudades tuas –
pedem que eu seja pássaro à partida
e que eu seja homem, chegado a ti,
que te abrace, que me abraces,
que me sorrias anos de primavera só,
e eu deixe de ser homem que migra.

Sérgio Lizardo