13 de junho de 2016

O ENTERRO


Foto: Ruslan Lobanov


O ENTERRO


São 3 da tarde.
Vamos a um enterro.

Despe a tua melhor roupa.
Aquela que assenta 
que nem uma luva
no meio do chão.
Deves ir apresentável.

Aviso-te
que o enterro é no Sul.
Assim já sabes que podemos
perder o Norte.

Atravessamos a casa da morte.
Abrimos a noite.

Nestes casos nunca se sabe como
devemos estar.
Julgo que apenas 
haverá posições a adotar:
De pé a olhar;
Sentada para sentir;
Ajoelhada para venerar.

Sentes o sabor
do perfume
líquido das rosas 
na boca.

Soluço entre as pernas.
Agitas as águas.
Depois de semear ventos,
colhes tempestades.
Não contenho as lágrimas
e elas escorrem nas palmas
das tuas mãos.

Caio de joelhos.
Fico suja de terra.
Já nada tenho para vestir.

Pela boca morre o pexe
e eu digo que é pela boca
que nascem as árvores
de tronco viril.

Ecoa o cântico orgásmico
pelas paredes dos corpos.

Sinto o fogo a consumir-me
até me cremar.
Enterras-te comigo
dentro de mim.

Ninguém sabe 
que morremos.
Ressuscitamos ao terceiro dia.

O sinal é o cântico que ecoou aqui.
Ouviste-o?

Ana Pereira