18 de agosto de 2016

NÃO FALAMOS


Foto: Alicia Marie


NÃO FALAMOS 


Nunca fui reta.
Andei em ziguezague
e por vezes em paralelos.
Facilmente escorreguei.

Hoje,
olho para o espelho
e o que é faminto,
obsceno
repousa nos fios dourados
da cabeça
que não pensa.

Mastigo as palavras
que me ardem nos olhos.
Mantenho-me direita
para digerir bem
os alimentos quentes.
Dispo-me do que não faz falta.

Sento-me
e a temperatura sobe 90 graus
e do lado oposto
ficas tu e rasas tudo
sem planos inclinados.
Apenas horizontais ou verticais.
A temperatura sobe 
aos 180 graus.

Fica o corpo incandescente
que germina feito semente.
Damos um giro de 360 
no enlace.

Do chão surge a solidez
do que nos suporta.
A vida existe na
fértil humidade.

Ecoa o silêncio dos corpos.
Não falamos.
Poetizamos apenas.

Ana Pereira