17 de novembro de 2014

A PÉROLA





A Pérola


Tomei teus lábios
com carinho,
valsando com a
tua língua
no palco das
nossas bocas

As mãos,
frementes
arrepiam-te
a pele do
corpo
orvalhando-o

Lentamente
escorregando
como se mergulhasse
em apneia
tomo a tua
concha e
suavemente
afasto as duas
valvas e
colho em triunfo
a tua pérola.

Hamilton Ramos Afonso


4 de novembro de 2014

A ELIPSE


Foto: Ognyan Geshev


A ELIPSE



Há a elipse 
da Palavra.

Fala-me ao ouvido.
Chama-me.
Eu rendo-me,
rasgando o que me cobre e,
no obscuro pulsar
dos corpos,
abro os lábios
para te falar de inocência
na ponta dos dedos.

Há a elipse 
da Palavra.

Imortalizo-te 
na mesa deserta.
Solto as vogais.
Leio-te de olhos fechados
como se o teu corpo
fosse braille.

Há a elipse 
da Palavra.

A caligrafia é transparente.
É horrível, e por isso,
fica invisível. 
Saio na ponta dos pés.
Ainda nada te disse.
Não sei quem és.

Há a elipse 
da Palavra.

Liberto a língua.
Alio sílabas.
Formo palavras.
Há coisas que não
se consegue dizer.
Tapa os olhos 
e vais ver.

Encosto-me.
Anseias-me.
Ardo.
Desfaço-me em espuma.
Apeteces-me.

Há a elipse 
da Palavra.

Fica o cheiro 
na raiz do papel.
A Palavra morreu.
Fica o eco aceso
do que (não) te disse
em gestos silenciosos.

Há a elipse 
da Palavra.

Amo-te.

Ana Pereira

1 de novembro de 2014

SOMOS ASSIM, UM SÓ SER


Imagem - Lo Charme è un nodo da stringere con stile



SOMOS ASSIM, UM SÓ SER


Contornas os meus olhos com o teu negro cintilante
E premias rubores às minhas faces no singelo 
Gesto de cutucar meu braço ardente;

Rebolo o olhar como se não houvesse amanhã,
Laivos que se desenlaçam pelo espaço,
Que nos é ente, nivelando embaraço;

Sorrisos que brotam daquele abraço
Que não tem qualquer pressa da manhã
E nós extasiados pelo hiato elã!

O café esfria na mesa, bebemos o instante
Que tem travo ao mais nobre cafeeiro
E a lua sobe altiva e leve, que nem pena, rompendo o nevoeiro;

Os meus olhos brilham como as estrelas que teimam poisar
No teu colo e beliscas-me em terno olhar 
Como quem deseja mui saborear o luar;

O meu salto prende-se ao pé da mesa 
E teu pé lascivo relaxa o meu tornozelo,
Espreita-se o peito que resplandece beleza.

A noite embrulha-se em cortinas de organdi para beijar
As bocas ferventes de essências raras, meu bem, que manjar
De céus abertos ao linear de corpos que se desejam!

Esquecemos o tempo, abrem-se as mãos de par em par
E caminham pelo verde prado até ao nosso lar
Segredando o quanto ainda desejam.

Contornas os meus olhos com o teu negro cintilante
E eu não te resisto, meu bem, sou tua amante;
Somos assim, um só ser.

® RÓ MAR