31 de dezembro de 2014

TEU PERFUME





Teu Perfume


Da fusão dos nossos dois corpos,
apenas vestidos pelas nossas peles,
celebrámos a vida,
no meio das labaredas da paixão...

Vontades em combustão, 
orvalhadas as peles,
no remanso do abraço retemperador,
ficou-me no corpo o teu perfume 
que me recorda as veredas
onde cresce a Madressilva
e os canteiros da adolescência
onde floresce o alecrim e a alfazema 
com laivos de jasmim em olorosa trepadeira...

Hamilton Afonso

ESQUINA CLARA



Foto: Regard sur Image 


ESQUINA CLARA



Recolho-me na concha
e desabrocho na
ondulação do vento.

Estende o braço.
Abre a mão.
Quero tocar 
no oculto da tua roupa.

Trago compassos
que vou abrir
ao alargar o nosso espaço.
Simples raio.
Espaço circular onde, 
quando abro os braços
e posso rodopiar.

Puxa-me para ti.
Estás livre.
Solta-me a mão.
Eleva-me do chão.
Posso voar
e rasgar o ar.

Andamos às voltas
para manter acesa a fogueira.
É preciso oxigenar o Amor pois
há fortes riscos de morrer de apneia.

Respira na página
quando te dou corda. 
Deixo que a língua fale em silêncio. 
É assim que o Amor acorda
sem Solidão.

Anoitece
e dançamos em Sol menor.
Sem dó
Lá num espaço encantado.
Quebra-se o gelo.
Recolhe as estrelas do meu cabelo.
vamos pelas ruas adentro.

Nos reencontraremos,
quando dobrarmos a esquina clara
do desejo que cai no pano 
virgem.
Nada receies!
Estarei cá para o ano.

Ana Pereira


17 de novembro de 2014

A PÉROLA





A Pérola


Tomei teus lábios
com carinho,
valsando com a
tua língua
no palco das
nossas bocas

As mãos,
frementes
arrepiam-te
a pele do
corpo
orvalhando-o

Lentamente
escorregando
como se mergulhasse
em apneia
tomo a tua
concha e
suavemente
afasto as duas
valvas e
colho em triunfo
a tua pérola.

Hamilton Ramos Afonso


4 de novembro de 2014

A ELIPSE


Foto: Ognyan Geshev


A ELIPSE



Há a elipse 
da Palavra.

Fala-me ao ouvido.
Chama-me.
Eu rendo-me,
rasgando o que me cobre e,
no obscuro pulsar
dos corpos,
abro os lábios
para te falar de inocência
na ponta dos dedos.

Há a elipse 
da Palavra.

Imortalizo-te 
na mesa deserta.
Solto as vogais.
Leio-te de olhos fechados
como se o teu corpo
fosse braille.

Há a elipse 
da Palavra.

A caligrafia é transparente.
É horrível, e por isso,
fica invisível. 
Saio na ponta dos pés.
Ainda nada te disse.
Não sei quem és.

Há a elipse 
da Palavra.

Liberto a língua.
Alio sílabas.
Formo palavras.
Há coisas que não
se consegue dizer.
Tapa os olhos 
e vais ver.

Encosto-me.
Anseias-me.
Ardo.
Desfaço-me em espuma.
Apeteces-me.

Há a elipse 
da Palavra.

Fica o cheiro 
na raiz do papel.
A Palavra morreu.
Fica o eco aceso
do que (não) te disse
em gestos silenciosos.

Há a elipse 
da Palavra.

Amo-te.

Ana Pereira

1 de novembro de 2014

SOMOS ASSIM, UM SÓ SER


Imagem - Lo Charme è un nodo da stringere con stile



SOMOS ASSIM, UM SÓ SER


Contornas os meus olhos com o teu negro cintilante
E premias rubores às minhas faces no singelo 
Gesto de cutucar meu braço ardente;

Rebolo o olhar como se não houvesse amanhã,
Laivos que se desenlaçam pelo espaço,
Que nos é ente, nivelando embaraço;

Sorrisos que brotam daquele abraço
Que não tem qualquer pressa da manhã
E nós extasiados pelo hiato elã!

O café esfria na mesa, bebemos o instante
Que tem travo ao mais nobre cafeeiro
E a lua sobe altiva e leve, que nem pena, rompendo o nevoeiro;

Os meus olhos brilham como as estrelas que teimam poisar
No teu colo e beliscas-me em terno olhar 
Como quem deseja mui saborear o luar;

O meu salto prende-se ao pé da mesa 
E teu pé lascivo relaxa o meu tornozelo,
Espreita-se o peito que resplandece beleza.

A noite embrulha-se em cortinas de organdi para beijar
As bocas ferventes de essências raras, meu bem, que manjar
De céus abertos ao linear de corpos que se desejam!

Esquecemos o tempo, abrem-se as mãos de par em par
E caminham pelo verde prado até ao nosso lar
Segredando o quanto ainda desejam.

Contornas os meus olhos com o teu negro cintilante
E eu não te resisto, meu bem, sou tua amante;
Somos assim, um só ser.

® RÓ MAR

31 de outubro de 2014

TÁLAMO DE VERSOS RAROS...



Tálamo de versos raros…


Arde, indelevelmente, em meu peito…
Um forte tálamo de versos raros!
Um doce ardor! Amor versando feito
Magos! minh ‘alma em nevados aparos!


Ó, meu amor! fulcro do meu poema!...
Ergo d´oiro… reino de castros,
Mil. Rubor de eflúvios… alfazema,
Na tez iluminada. A luz dos astros!...

Levas de meu ser… em supremo céu,
Inda que densas as neblinas em breu…
Que se abrem para mim, tão docemente…

Ó, meu amor! pétala de íris!… meu olhar!...
Flor púrpura extasiada… de mar,
Brotando meu fundo, serenamente!...

Helena Martins

EU, TU E O MAR…



EU, TU E O MAR…


Quando não estás perto de mim fujo
Para outro planeta, onde só há uma rosa
Vermelha a ancorar meu porto marujo
E ali fico, até o tempo voltar, em prosa.

Encontro-me no aconchego de pétalas
Que perfumam noites a laivos de um mar
Que é nosso e perco-me por ali a adora-las,
Remo até ao infinito de um recordar.

Quando não estás perto de mim amo
O universo que é tão nosso e respiro poesia
Pelos ventos de outro planeta, meu bálsamo.

Centelha pelo luar, leito de um amor
Que adormece ao meu lado até ser dia.
Eu, tu e o mar letra que desperta em flor.

® RÓ MAR 


30 de outubro de 2014

TOMA-ME...


Imagem - net (autor desconhecido)



Toma-me…


Na brandura do entardecer
No suave voar de mil e uma fantasias
No ondular sonâmbulo das gaivotas
Escutando a voz sonolenta da brisa
E o assobio apaixonado dos pássaros. 

…Sem passado, nem futuro, toma-me 
Respirando quase a medo 
Descobrindo, abrindo, rasgando 
Penetrando nos sonhos que transporto nas asas. 

Toma-me… 

No agitar feiticeiro dos primeiros pingos de orvalho 
Sentindo o cheiro da terra molhada 
E pressentido com ternura o azul dos sentidos 
E o rumor dos sonhos ancorados 
Sobre espigas douradas. 

Toma-me…. 

Germinando alvoradas 
Entorpecida de arrepios de calor e frio 
Escutando o canto dos grilos 
E a melodia das cigarras 

…Circundando suavemente o vento, a brisa doce 
E o ressuscitar secreto das águas límpidas das fontes. 

Toma-me... 

Com asas de borboleta no destino 
Afagando o nascer do luar interior 
Alcançando a distância das searas 
E alimentando o romper do sol com espasmos de prazer. 

…No dilatar suave da Primavera 
Pousando beijos nos ramos das estações 
Acariciando a fruta madura das videiras 
E saboreando a embriaguez e o delírio dos bagos de uva. 

Toma-me… 

Sugando o Outono vertiginoso 
Explorando e seduzindo os céus 
Beijando como um beija-flor 
O pólen derramado na doçura de uma flor 
…Colhendo nas suas pétalas dispersas 
Todos os sonhos frescos 
E os seus gemidos selvagens. 

Toma-me… 

Sou fêmea perdida 
Ventania…e vulcão até falecer! 

Telma Estêvão 


SOMOS A LUA NA NOITE DOS BEM-AMADOS


Imagem - Belissime Immagini 



SOMOS A LUA NA NOITE DOS BEM-AMADOS


Sou-te o rio que percorre as veias,
És-me o doce regato que satisfaz.

Somos plenos de exuberantes ideias
Que se abrem pelas águas-furtadas
Das ávidas bocas e saciam as caminhadas 
Que se elevam no horizonte ao coração.

Pelas correntes térmicas da nossa imaginação
Os corpos ondeiam-se de entusiasmos
Novos que vislumbram no audaz
E suculento néctar que nos excita.

Somos leves trapézios no azul que habita
O céu e estrelamos as águas, brilho
Contagiante dos olhares venturados.

Somos a lua na noite dos bem-amados,
Mutantes transparecem os corpos suados
Lubrificando o dia, vê-se o amanhecer, brilho
Que reflecte a luz dos nossos orgasmos.

® RÓ MAR